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Divorciada aos 10 anos

Nujood Ali nasceu em Khardji, uma pequena povoação no Iémen. Hoje com cerca de 12 anos, Nujood já tem um estado civil capaz de assustar muitas mulheres (e homens) adultos – ela é divorciada.

Shoya, sua mãe, se casou aos 16 anos com Ali Mohammad al-Ahdel. Com 3 anos Nujood viu a irmã Mona – de na época 13 anos – sendo entregue para casamento. Embora muito nova, ela se lembra da agitação e das disputas que envolveram o acontecimento. O que não teve como prever foi que o seu destino seria parecido.

Seu pai estava desempregado, não conseguia encontrar um emprego a tempo inteiro e as despesas da casa se acumulavam. Todos os irmãos trabalhavam como vendedores de lenços de papel, indo de casa em casa mas nada parecia funcionar. Ali passava cada vez mais tempo desesperado e se refugiava nos botecos onde passava horas mascando tabaco. Foi num desses lugares que um homem com cerca de 30 anos se aproximou dele e sugeriu que unissem as famílias. O seu nome era Faez Ali Thamere trabalhava como moço de entregas. Todas as irmãs (um pouco) mais velhas de Nujood já estavam casadas, só sobrava ela. E assim recebeu a “boa” notícia: “Nujood, você vai casar!”.

A família de Faez decidiu que a menina tinha que abandonar a escola e o dote por ela foi fixado em 150000 riais (cerca de 540 euros). O casamento foi organizado com pressa – o vestido da noiva foi uma túnica cor de chocolate que tinha pertencido à sua cunhada e sua mãe instruiu: “A partir de hoje, vai ter que se cobrir quando sair de casa. Agora é uma mulher casada. É a honra dele que está em causa!” – Nujood ainda não tinha conhecido o marido mas já tinha aberto mão de muita coisa por ele.

Na manhã seguinte ele foi pegá-la em casa e ela o achou feio. Ele a leva para uma aldeia no interior onde mora com sua mãe e os irmãos. Jantam, e enquanto o marido fica mascando tabaco, ela decide ir dormir. Nessa noite – e apesar dele ter prometido ao pai de Nujood que não iria tocar nela até que fosse mais velha – Faez se deitou na cama e começou a se esfregar. A menina tentou fugir, ameaçou contar a seu pai, chamou pela sogra, chorou e esperneou mas ele respondeu: “És minha mulher agora. Fazes o que eu quero!”.

As palavras de Nujood descrevem o que aconteceu depois: “De repente, foi como se eu tivesse sido apanhada por um furacão, atirada ao ar, atingida por um raio e não tivesse mais forças para reagir. Um ardor invadiu a parte mais profunda de mim. Por mais que gritasse, ninguém veio em meu auxílio. Doeu horrivelmente. Gritei mais uma vez, creio, e depois perdi os sentidos.”.

Sem escolha, rapidamente teve que se adaptar a uma nova vida. O marido não a deixava sair de casa, não se podia queixar nem dizer “não”. Durante o dia tinha que obedecer à sogra e limpava a casa, de noite tinha que satisfazer Faez mesmo contra sua vontade. No terceiro dia ele começou a bater-lhe. Primeiro com a mão, depois com um pau.

Nujood caiu em desespero e talvez com pena ou pensando que podia melhorar as coisas, seu marido finalmente aceitou que fossem visitar a família dela. Suas esperanças de nunca mais regressar imediatamente cresceram. Ela se queixou para seu pai, que negou recebê-la de volta e lhe disse que estava fora de questão ela deixar o marido. Shoya não reagiu melhor “É assim a vida, Nujood: as mulheres têm que passar por estas coisas.”.

Sem sucesso em casa, a menina foi visitar Dowla, a segunda mulher de seu pai, que vivia com cinco crianças num minúsculo apartamento do outro lado da rua. Sensibilizada, esta lhe aconselhou a ir diretamente no tribunal e lhe deu 200 riais para ajudar a pagar o transporte. No dia seguinte, a mãe de Nujood pede que ela vá comprar pão. Ela faz um desvio de rota e se dirige para o tribunal.

Chegou nervosa e atrapalhada, pediu para falar com o juiz. Esperou sentada numa cadeira e quando foi atendida disse determinada: “Eu quero o divórcio.”. Todos ficaram espantados com sua história e se prontificaram a ajudar. Como muitas outras pessoas na região, ela não tinha Certidão de Nascimento nem nenhum documento e como seu pai e o marido assinaram um contrato que de acordo com as leis locais era válido, a alertaram que provavelmente ia ser um caso demorado.

Temendo por sua segurança a menina foi acolhida por um dos funcionários do tribunal para que não tivesse que voltar para casa. Shada, uma advogada dedicada à defesa de mulheres aceitou representá-la e finalmente o grande dia chegou mais cedo do que o esperado – o dia da audiência. Faez negou todas as acusações mas em 2008 com apenas 10 anos de idade Nujood consegue o divórcio.

Em uma entrevista posterior ela declara: “O divórcio mudou a minha vida. Quando vou na rua, às vezes as mulheres me chamam e me dão os parabéns. Há pouco tempo, deixei a casa do meu tio e regressei a casa dos meus pais. Parece que não aconteceu nada.”

Nujood voltou para a escola e quando crescer quer ser advogada tal como Shada, para defender outras meninas como ela.

Em Abril de 2009, o Parlamento Iemenita aprovou uma lei que aumenta a idade de consentimento para os 17 anos, mas a lei foi revogada no dia seguinte por pressão dos partidos conservadores. A alteração da idade legal de consentimento está ainda em discussão.

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2 respostas para “Divorciada aos 10 anos

  • Angel

    Que horror. Ainda tratam as mulheres, se pode dizer que uma menina é uma mulher, como depósito de sémem, muito, muito mostruoso!!

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    • Stephy

      A forma de ver a vida é completamente diferente de cultura para cultura. O país onde nascemos, as regras sociais e até o clima fazem toda a diferença no nosso destino, na forma como pensamos, vivemos e seguimos a vida. O que nos parece um choque é mais comum do que se pensa e a liberdade que temos por garantida em muitos países não o é.

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