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A coragem de pedir desculpa

Há uns anos atrás, tive um pequeno problema com uma menina. Ela chegou uns meses antes de mim em Dubai e veio para morar com seu então namorado, hoje marido e pai de seu filho.

Talvez porque na época ela não tinha um inglês fluente, ficou algum tempo sem arrumar emprego, fazia aulas de inglês mas era basicamente isso. Sua vida era focada, e em volta, da de seu namorado. Seus amigos eram amigos dele que viravam dela, etc. O Dubai daquela época não era o Dubai de hoje. As opções de entretenimento eram limitadas, as coisas eram diferentes e com certezas mais difíceis.

Foi ela que me pegou no aeroporto no dia em que eu cheguei, me recebeu com um belo sorriso e com um cartaz que ela mesmo fez. Embora eu seja um papelzinho de embrulhar prego e ela o meu oposto – sempre delicada, voz meiga – eu a achava divertida e era gostoso quando saiamos juntas, achei que seriamos boas amigas. Talvez também pelo fato de eu ter chegado com 23 anos num lugar totalmente desconhecido, achei que teriamos a nossa situação em comum, e nisso um suporte. E na verdade foi assim que começou.

Fazíamos tudo juntas: sempre estávamos nas mesmas festas, nos mesmos jantares, nos mesmos eventos, cinemas, café, bares, pra terem noção, fui eu que ofereci o seu vestido de casamento.

No lado pessoal, eu estava tendo sorte! Arrumei emprego mais ou menos um mês após minha chegada, eu gostava do trabalho, das pessoas, tudo certo.

Um pouco depois do seu casamento, me arrisco a dizer quase no dia seguinte, tudo mudou. Por algum motivo que eu nunca soube explicar, de um dia para o outro ela parou de falar comigo e começou a vetar qualquer coisa em que eu estivesse envolvida.

Com nossos amigos em comum era – ou ela ou eu; me lembro numa festa que nos esbarramos e que quando eu fui cumprimentar levei uma bela virada de cara. O marido dela chegou a ir na minha casa, debaixo do meu teto, falar merda! Sinceramente já nem lembro muito bem das suas palavras, me lembro apenas de estar na sala pensando “Isso só pode ser brincadeira ou um sonho, não pode ser real”. Se fosse hoje provavelmente teria descido pela janela rs.

Quem me conhece um pouquinho fora do blog, deve estar pensando que estaria pouco me lixando pra tudo isso, não ligo pra nada do que ninguém pensa mesmo e normalmente nada dessas coisas me afecta. E em 98% dos casos estariam certos. Nesse não.

É que essa situação especifica, de acordo com a minha condição naquele tempo, também porque era muito nova, não tinha muitos amigos em Dubai e não sabia lidar com essas coisas (nunca tinha acontecido comigo antes), foi extremamente complicada. Me trouxe muitas brigas, muita tensão, muito sofrimento porque tive que me defender de ataques de todo o canto sozinha e sem nem sequer saber o que tinha feito. E isso era o que mais me incomodava – eu não sabia o que tinha feito, sequer se tinha feito alguma coisa! Eu vasculhei o meu cérebro inteiro, tanto! Tentando lembrar se tinha falado algo, feito algo, mexido, olhado, cheirado alguma coisa que não devia, sei lá. E nao achava!

Mas claro que eu sempre serei eu e como tal, passado alguns meses de tensão, liguei o que eu gosto de chamar o “foda-se”. Sacudi, deixei bem claro que não queria saber, não me interessava, não queria nem bem nem mal, ia apenas ignorar e fingir que não existe, como se fosse um vizinho que se vê passar no corredor mas nem fede nem cheira. Eu interiorizei que o que quer que fosse, tinha sido imaturidade, besteira, bobagem, talvez algum ciuminho e botei de lado.

O post é sobre essa pessoa, que passados quase 6 anos me mandou uma mensagem pedindo desculpa. Mas mais importante ainda, que finalmente explicou o que aconteceu e admitiu que não teve nenhum motivo especifico, foi “apenas” o fato de estar afastada de sua casa, sem emprego há meses, morando num lugar isolado, se sentindo desanimada e sem se reconhecer mais, com energia apagada. Quando eu cheguei toda serelepe, cheia de planos e entusiasmada, o seu lado mais humano se manifestou e ela começou a não me suportar e terminou envolvendo outras pessoas, incluindo seu esposo.

Achei que faz sentido. Na verdade até me identifiquei um pouco. Imagino que o que ela estava sentindo foi mais ou menos o que eu senti quando morei em São Paulo e fiquei sem trabalhar por uns meses numa cidade completamente desconhecida e sem amigos. Embora eu não tenha prejudicado ninguém, fez perfeito sentido que ela se sentisse negativa, pra baixo, irreconhecível. E ás vezes podemos machucar os outros quando estamos assim.

Obviamente ela sentiu alguma culpa todos esses anos. Imagino que deve ter pensando durante muito tempo como falar comigo, como explicar, como dizer. Admiro que tenha conseguido faze-lo. Penso que muita gente não teria nem tem coragem, deixaria passar, esperaria desaparecer no tempo. E depois de tanto tempo, já teria desaparecido, pra mim já tinha desaparecido, ela já estava desculpada.

Esse post é para dizer que afinal aquela pessoa que eu tinha conhecido e me recebeu no aeroporto com um sorriso, é a verdadeira essência e que assim como me ensinou uma lição não tão boa antes, me ensinou uma muito mais importante agora – nunca é tarde para pedir desculpa.

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2 respostas para “A coragem de pedir desculpa

  • Patricia Mendez

    Concordo contigo minha filha.
    Nunca é tarde para quem faz mal a alguém, pedir desculpa, isso não é uma fraqueza mas um gesto de uma grandeza e maturidade incriveis.
    O facto de “não entendermos o porque???” é o que mais complica.
    Quando sabemos, conseguimos entender melhor, aceitar melhor e até tentar ajudar a resolver/esclarecer… Quando não sabemos, é impossível.

    E com isso o tempo passa, e as coisas mudam e os sentimentos tambem.

    Que bom que passados 6 anos conseguiste saber o motivo, e a partir dai, perdoar ou não está do teu lado.
    De qualquer forma, perdeu-se tempo e perderam-se momentos.

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